Já se vão mais de 30 anos fotografando, destes uns 25 profissionalmente e pelo menos mais uns 17 lecionando, e o que mais ouvi e ainda ouço neste universo do fazer fotográfico além da clássica “qual é a melhor câmera?”, é a pergunta: “o que é uma boa fotografia?”.

Boa pergunta! E se você, que faz a pergunta, não sabe responder, é porque, provavelmente, busca a resposta pelos olhos dos outros.

1. Michelangelo Merisi CARAVAGGIO. A prisão de Cristo, 1602

Michelangelo Merisi CARAVAGGIO. A prisão de Cristo, 1602.

Ver é um ato pessoal! E, o que estou defendendo aqui é a possibilidade, mesmo que intuitiva, de uma expressão mais livre da opressão das “boas regras” de composição e das delimitações estéticas, essencialmente regidas pelos efeitos de software e pelos “truquezinhos técnicos” disponíveis nos milhares de sites, livros e tutoriais da internet.

Obviamente, estou falando para quem gosta de imagem, como quem se alimenta, simbolicamente, de poesia, de música, de literatura, etc. Sem necessariamente, precisar saber “o que ela, ou seu autor, quis dizer”. Falo de quem busca, por necessidade, se expressar e preencher alguma sensação que talvez possa ser configurada a partir de algum significado visual (imagem), pela mediação de uma câmera fotográfica.

Sim, é importante conhecer, adquirir repertório, ter influências. Porém, se você não filtrá-las, não preencher suas necessidades e expectativas pessoais, será no máximo uma reprodução ou até uma bela cópia. A técnica é, realmente, importante para quem quer transformar pensamento em imagem, mas dominar a perfeita regra da boa escrita não agrega conteúdo, que é a porção subjetiva e que não encontramos no passo a passo do como fazer “bem feitinho” dos tutoriais. Explicações não são por si só, respostas às nossas indagações. São “dicas”, que podem ajudar a encontrar respostas, cada um ao seu modo e a partir de seus próprios contextos (pessoais, profissionais, etc.). No entanto, essas respostas são tão múltiplas em significados quanto são múltiplas nossas necessidades de explicações. Ou seja, mesmo que, racionalmente, uma explicação ou uma resposta estejam “corretas”, somente sua necessidade pessoal dará sentido e significado a ela.

Edgar DEGAS, O exame de dança, C. 1880.

Edgar DEGAS, O exame de dança, C. 1880.

“A arte nasce da imprecisão da vista. Já que as coisas são múltiplas e móveis, nossa visão não consegue, nem dá conta de captar o todo”, já dizia o filósofo Friedrich Nietzsche em seu livro Sobre verdade e mentira (1873). A ideia de se fazer boas imagens/fotos, está fortemente ligada à consciência de concepção e de construção visual. Antes de tudo, é importante ter consciência do pensar e do perceber a imagem e somente a partir disso, começamos a compor (conceber) algo. O que é ambíguo num momento em que fotografar se resume, muitas vezes, em ter um aparato capaz de fotografar e apertar um botão infinitas vezes para, posteriormente, escolher a “mais bonita”.

Quando uma fotografia é boa? Uma boa fotografia é boa para que? Para quem? Colocado assim, estas perguntas podem até parecer uma simplificação obvia da questão, mas normalmente, as “regras” do correto a se fazer, da maneira como são apresentadas, não consideram um contexto específico, nem uma proposta ou uma necessidade. E sim, parâmetros genéricos, que confundem questões técnicas com condutas de mercado, misturando estéticas das mais diversas com um punhado de “regras de composição”. Atento, novamente para o foco aqui, que é a livre significação e expressão do “pensar visual” que preenche questões individuais e não a significação alheia, como num trabalho profissional, que ainda assim, agrega uma manifestação do “olhar” e do “fazer” de quem o produz.

Uma das características mais fortes da linguagem fotográfica é a sua aparente representação “fiel” do mundo real. Essa maneira de traduzir o referente que tem a fotografia é uma característica específica de sua linguagem que se deve a uma espécie de pré-formatação técnica, ligada à estrutura do aparato técnico (câmera).  Isso determina uma série de relações estéticas na percepção do senso comum. Normalmente, é esta percepção, vinda do senso comum que reforça a racionalização de questões relacionadas à fisiologia do olhar. Essa racionalização acaba criando confusões conceituais para aqueles que buscam entender a imagem fotográfica a partir de uma só concepção, com parâmetros estruturados e desenvolvidos a partir de linguagens de bases diferentes como a da pintura (que é a base cultural destas teorias de composição visual). Isto acaba distanciando e deturpando boa parte das teorias do “olhar”, da “boa composição”, sobre o “belo” e sobre o “feio”, e até mesmo conceitos sobre a própria “percepção”.

Rue Mouffetard, Paris' (1954), Henri-Cartier-Bresson

Rue Mouffetard, Paris’ (1954), Henri-Cartier-Bresson

Assusta-me perceber, que, numa certa medida, o que já foi a tradição ou a “retaguarda” histórica (porém muito fundamentada), hoje é mais “vanguarda” do que o que vemos no dia a dia e nos discursos ditos profissionais e experientes. Há muito não tenho trocado uma boa “intuição” alternativa, com um frescor até “amador” de um olhar fora da “boa regra”, pelas “belas” regras de composição coladas dos tutoriais. Tutoriais estes que, por sua vez, foram colados a partir de leituras rasas de livros e de um não entendimento básico da natureza de relações da imagem, de sua ampliação conceitual como representação e através dos seus códigos.

Queria que alguém dissesse ao Caravaggio que ele não devia cortar os membros humanos; que contasse ao impressionista Degas que ele, infelizmente, não tem futuro; e para o Bresson, que a sua foto tem um enquadramento ruim, pois além de cortar membros também corta outros elementos da cena e que ele não devia inclinar o eixo da imagem; ao Capa e ao James Nachtwey que, em suas fotos de guerra, em meio as balas passando zunindo em seus ouvidos, eles não deixem de lembrar de usar a “regra dos terços”.